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09/Mar/2010
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Editorial
Na poesia do Carlos Moreira o Nada é Tudo.

A propósito do livro “Tetralogia do Nada” de Carlos Moreira

Adentrar na poética imagética de Carlos Moreira,  como diz um verso da minha poesia “Carrosséis Soturnos”, é “nadar em  rio desfolhado de beira”. É demonstração clara e objetiva de como é grande e infinito o significado de uma palavra, e mais, mais infinito ainda, se assim podemos dizer, quando essas palavras se juntam em busca de um significado poético. Moreira sabe disso, daí abusar dos significados possíveis vários nas suas construções várias que nos levam as mais absurdas e simplórias  conclusões, que de repente, pode significar nada ou tudo se você quiser.

Mas o poeta não engana. Sempre está dando a dica do que pretende com suas construções aparentemente desconexas, no entanto cheias de conteúdos:

“quem entra na caverna da linguagem

   deixa lá fora a esperança de ser um

   multiplicando em si o mundo inteiro”

Tenta nos enganar o tempo todo, como se o que escrevesse fosse nada, sabendo profundamente, que procura expressar, com o sofrimento possível, o tudo que é a vida humana.  Tudo que é esse sofrimento de ser humano, delicado e sensível, convivendo em meio tanta brutalidade, tanta falta de sensibilidade, tantas mortes aparentemente vidas. Afinal, “a palavra cantada só germina /  se o ouvido tiver a alma fina”. E quem terá a consciência que:

“Ulisses sabia que não só o canto

  como a sereia inteira era cristal

  e que portanto era inútil a cera:

  só o desejo de enganar-se era real” ?

Moreira se mostra só, e essa solidão lhe dói pois queria ser com os outros, mas seu eu é mais que os outros podem dar ou ofertar e ele volta triste e só para seu eu agoniado querendo acreditar o que a realidade sempre nega e por isso sofre e então explode em poesia onde Deus está sempre presente de uma forma absurda, que não soluciona o penar do homem na terra – esse vale de lágrimas.

“ eu sou um só                             e de tanto ser                              pra de uns

    mas não sou                              sem sentido                                      ser

       só um                                         algum                                           um”

 

somos muitos sós                         desfazemos nós

   em lugar                                    dilatamos zoons

    nenhum                                     acendemos sóis

A poética de Moreira nos instiga a ser mais gente, mais eu no todo, buscar algo além das aparências,e fundamental, sermos menos calhordas e falsos com a realidade que corrói a alma humana, que nos faz vivermos de aparências, cultuando o falso e castigando e condenando o real, para a comodidade de falsos honestos, que execram a poesia, o poeta/carne por dizer a verdade:

“ como querer do poeta

      a monogamia

com tanta musa no templo

      da poesia”

Leiam o livro “Tetralogia do Nada” do poeta Carlos Moreira. De uma coisa tenho certeza: sairão de lá mais humanos e compreendendo, um pouco mais, o  sofrimento do ser homem/mulher na terra.

 

Adaides Batista – Dadá

 Jornalista e poeta


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